sexta-feira, 22 de agosto de 2003

Braga e Praga

2003-08-22
[JOÃO BÉNARD DA COSTA]
Público

Braga
e
Praga

...Por isso, renunciando a esses temas candentes (há outras razões, mas um dia chegará o tempo de explicá-las), reparei, nas efemérides do "Diário de Notícias", que passaram ontem 35 anos sobre a entrada dos tanques russos em Praga.
Tenho várias memórias - fundas memórias - ligadas a esses dias de pavor. Deixo-as para outra ocasião, recordando apenas uma anedota que se contava quando, um mês depois (em Setembro passarão outros 35 anos) Salazar caiu da cadeira abaixo. Dizia-se que a queda fora provocada por um erro de compreensão do velho senhor. Quando lhe disseram "os russos entraram em Praga", Salazar terá percebido "os russos entraram em Braga". Compreensivelmente, estatelou-se no chão.

3 - Praga e Braga. Antes de 68, eu pensava que as cidades se equivaliam, isto é, que viver na Checoslováquia "socialista" ou no Portugal "fascista" (espero que as aspas, nestes casos, jamais causem problemas jornalísticos) era mais ou menos a mesma coisa. Viver sem liberdade (ao menos, certas liberdades), viver sem respeito pelos direitos do homem (ao menos, certos direitos), viver com escolhas limitadíssimas. Às vezes, lá para as minhas bandas, havia grande discussão sobre o mal menor. Os mais "direitistas" lembravam que em Portugal não nos tiravam o passaporte e podíamos viajar (a minoria que tinha passaportes, dinheiro para viajar e que não estava sob vigilância mais controlada). Os mais "esquerdistas" argumentavam que as tropelias de Leste visavam, pelo menos, um nobre fim e que, para lá do muro, todos tinham pão, cama, mesa e roupa lavada (mesmo que tudo isso fosse assaz rudimentar).
Em 68, percebi que por mais que pensasse de Braga o que o Raposão de "A Relíquia" pensava (quando o amigo lhe perguntou por Jerusalém, ele respondeu: "Pior do que Braga! Pior do que Braga!") não havia qualquer comparação entre viver na cidade dos arcebispos e de Santos Cunha e viver na cidade donde Dubcek fora varrido. Em Braga, vivia-se numa cidade ultraconservadora, sob um regime autoritário que podia ser duro (às vezes duríssimo) mas onde era possível vida privada, onde era possível a conspirata de café e onde era possível estar razoavelmente informado do que se passava no resto do mundo, mesmo que os jornais, a rádio ou a televisão da paróquia censurassem as novas. Não me esqueço - nem pretendo que ninguém esqueça - que havia militantes políticos (sobretudo se eram membros ou simpatizantes do clandestino partido comunista) que não tinham nem vida privada, nem direitos alguns. Mas, com a grande maioria, não se passava nada disso, como posso testemunhar, eu que jamais pretendi passados heróicos, mas assumo uma história de que não me envergonho e que esteve longe de ser neutra.
É verdade que tremia um pouco, à chegada do estrangeiro, antes de me carimbarem o passaporte, mas também é verdade que nunca me impediram viagem nenhuma. É verdade que me foi vedada a carreira docente e qualquer emprego público, mas também o é que nunca estive desempregado e que o dinheiro que ganhava me dava para o pão e para a manteiga com que o barrar (por que é que hoje me deu para o Eça?). É verdade que passei tratos de polé com a censura e que algumas vezes fui chamado à PIDE, mas sempre disse o que pensava em lugares públicos e nunca fui preso. Escutas telefónicas? Quem me faz a pergunta não é meu amigo, porque sobre esse assunto estão mais conversados os meus auditores de agora (polícias ou juízes da impoluta democracia) do que os auscultadores de antigamente.

4 - Em 1975 (precisamente, no Verão de 1975) fui a Praga, pela primeira vez. Logo à chegada à fronteira (vinha da Áustria, de carro alugado) a revisão do automóvel e das nossas bagagens (da minha mulher e minha) durou bem mais uma hora do que durava em Portugal. Nunca mais me esquecerei (primeiro símbolo) que me apreenderam o "Nouvel Observateur", exactamente como sempre a PIDE mo apreendeu, antes de 74.
Cheguei a Praga, à noitinha. Entrámos num restaurante razoavelmente cheio. Mas, segundo o hábito germânico de encher mesas enquanto houvesse lugar nelas (mesmo quando os comensais se desconhecem), sentaram-nos com um jovem casal nativo. A certa altura, naturalmente curiosos, ouvindo a língua que falávamos, perguntaram-nos donde vínhamos. Melhor dito: perguntou-nos ela, a única que arranhava um bocadinho de inglês. Ouvindo Portugal - era 1975 - choveram as perguntas, apesar das dificuldades de comunicação. A páginas tantas, o rapaz disse qualquer coisa ao ouvido da rapariga, que corou muito e lhe deu repetidas negas. Julgando que ele nos queria pôr qualquer questão mais íntima, insistimos com a namorada pela tradução integral. Custou mas arrecadou. Muito baixinho, olhando para todos os lados, ela disse-nos: "My friend wants to know if you like russians." A surpresa foi tamanha que desatámos a rir. Não foi preciso mais. O amigo levantou-se como uma seta, encomendando ao criado uma garrafa de bom vinho branco, depois uma segunda, e esgotámo-las em saúdes cúmplices. A seguir, pagou-nos o jantar. "My friend" passou a ser o vocativo deles quando se nos dirigiam.
Por mais que pense no mais anti-yankee dos portugueses, no mais anti-imperialista dos comunistas portugueses, não o consigo imaginar a confraternizar com estrangeiros só porque estes tinham achado graça a uma pergunta sobre o amor deles aos americanos.
Foi apenas um prelúdio. Conheci depois um crítico de arte - que vivia de traduções sob pseudónimo - e que saía de casa, à noite, para, com amigos, ouvir numa cave longínqua "The Voice of America", como num filme antinazi. Quando lhe objectei que o programa era péssimo (era mesmo) respondeu-me que bem o sabia, mas que nada pagava o gozo de ouvir "heresias". Nunca, na minha vida, vivi o medo colectivo como em Praga, nesses dias de 1975. A polícia metia medo ao susto e os soldados russos não ajudavam à boémia. Foi então que percebi a diferença entre uma sociedade repressiva e uma sociedade totalitária. O totalitarismo, nenhum de nós, portugueses, o conheceu, nem nas horas mais duras do salazarismo.
Salazar acabou. O comunismo acabou. Praga, que viveu o nazismo e depois o comunismo, não os terá esquecido, mas aprendeu que não se brinca com fantasmas desses. Braga, que não viveu nada disso (apesar das militaradas de Gomes da Costa e das bombas do cónego Melo), devia-o aprender também. Com os mortos não se brinca. Pelo menos, assim mo ensinaram.

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