sexta-feira, 5 de dezembro de 2003

Não Há Espaço, Só Elementos e Pedras

2003-11-22
[ Jorge Figueira e Ana Vaz Milheiro ]
in Publico

Não Há Espaço,
Só Elementos
e Pedras

Eduardo Souto Moura fala da sua passagem de obras de pequena escala para a grande dimensão e intervenção no projecto do estádio de Braga e no território na experiência do Metro do Porto. Afirma que ser arquitecto do "star-system" corresponde a uma grande intensidade de trabalho e exigência de qualidade. Não o incomoda a ideia de se contratarem arquitectos do "star-system" para projectos específicos porque "a cidade tem que ter monumentos" e não só arquitectura corrente. Evoca ainda os seus tempos de formação, no escritório de Álvaro Siza, e como a Casa das Artes, que lhe valeu o Prémio Secil de Arquitectura 1993, foi uma reacção crítica ao ambiente cultural da passagem dos anos 70 para os 80, criando uma gramática que se generalizou no seio da arquitectura portuguesa: "Criei uma espécie de manual, que ultrapassou a adesão afectiva e, na altura em que se cristalizou, abandonei-o."

Mil Folhas - Há um grande clima de aceitação da obra do estádio de Braga, nomeadamente, da parte dos responsáveis da UEFA, com a excepção de Miguel Sousa Tavares. Tendo em conta as características da sua arquitectura, ficou surpreendido com a aceitação quase unânime do estádio?

Eduardo Souto Moura - Eu próprio me interrogo por não haver críticas. As coisas boas têm sempre um lado bom e um lado mau e até aqui a população de Braga aderiu e a UEFA fê-lo com grande entusiasmo. Admiro-me de não haver nenhuma crítica e a do Sousa Tavares não é crítica porque ele nunca foi lá.

P.- O que representa a obra do estádio no contexto da sua arquitectura? Vê-a como uma continuidade natural?

R. - Vejo o estádio como uma continuidade no percurso das minhas preocupações. A intervenção da arquitectura na paisagem e na geografia sempre me interessou. Faço as obras com autonomia suficiente e não tenho sempre o álibi do sítio e da integração. Só que aqui há uma ampliação de escala, de tal maneira que essa leitura de continuidade pode ser mais difícil. É tão diferente, em relação às casas de um piso, que parece que é uma coisa completamente nova. Não é, as regras do jogo é que mudaram. O estádio é autónomo, mas tem muito a ver com o sítio.

P.- Pode-se fazer algum paralelo entre esta obra do estádio e o seu trabalho na coordenação do Metro do Porto?

R.- O estádio é uma experiência completamente diferente. O Metro, mais que um projecto, é um laboratório do que entendo que deve ser a arquitectura futura. Numa obra como esta, há uma coisa fundamental: a adesão do dono da obra. Não há nenhuma boa obra sem um bom cliente. Segundo, uma obra desta escala envolve problemas de engenharia que não devem estar separados da arquitectura. Cada vez mais, as sugestões sobre o material e os sistemas construtivos têm de estar ligados à linguagem. Quando há um desenho sobre um território tão vasto, tem de haver uma grande coerência de princípios. Temos o programa, o dono de obra e a engenharia, que tem de ser adaptada à linguagem que o arquitecto pretende.

Digo que é um laboratório, porque foi um espaço em que desenhámos - como aqueles concertos de piano a quatro mãos - peça a peça, engenharia e arquitectura, intensamente e em tempos curtos. De manhã desenhavam os engenheiros; à tarde desenhava eu a arquitectura; à noite fazia-se a maqueta; no dia seguinte, de manhã, reuníamos e decidíamos; à tarde, os desenhos iam para o empreiteiro; à noite, era betonado. O que se falava da conciliação das três artes existiu aqui, não como um processo intelectual, mas porque tinha de ser assim.

P.- O que é surpreendente, tanto no processo do Metro como no estádio, é que mantém sempre a mesma intensidade e cumplicidade que se sente em projectos de outra escala.

R. - Aprendi-o com Siza. Falo do Siza porque trabalhei em Évora [na Malagueira]. Évora nasce - não de um projecto - mas de uma intenção de projecto. Aquilo que me interessou no seu trabalho foi perceber como as coisas se fazem: durante 25 anos Siza foi projectando e as coisas foram acontecendo. Os territórios, a partir de uma determinada escala, não podem ser desenhados. Não se podem desenhar alçados e plantas de cidades. Podem-se prever situações que sabemos irão acontecer. Hoje, a arquitectura não é só desenhar a parte física, é antever as situações e ter uma estratégia. Resulta numa cidade "inteligente", feita por muitas mãos, onde o coordenador é o arquitecto, mas há vários intervenientes.

P.- Estes trabalhos, nomeadamente, o estádio de Braga, servem para se libertar de uma espécie de marca "Eduardo Souto Moura", que existe e que se banalizou?

R. - O primeiro a irritar-se com essa marca fui eu. Não havia projecto algum em que não pedissem pedra e vidro... Mas o problema aqui não é de linguagem, é a alteração de escala. Comecei o meu percurso com casas, primeiro para a família e depois para os amigos. Fiz um esforço para sair dessa escala. Trabalhei imenso no primeiro concurso do Metro do Porto e apercebi-me de que as cidades não mudam, nem por eleições, nem por decisões políticas. Mudam quando há uma necessidade urgente. Eu sabia que o Metro ia alterar as cidades. Preparei as situações para que as coisas acontecessem e os resultados têm sido, pelo menos no caso de Matosinhos, bem sucedidos.

P.- Como é que reagiu quando a sua arquitectura começou a aparecer na obra de jovens arquitectos, criando-se uma espécie de "lugar-comum" da casa com paredes de pedra, planos soltos e vidro?

R. - Senti um certo regozijo, porque era uma confirmação. Senti que o meu trabalho tinha servido para alguma coisa. Criei uma espécie de manual, que ultrapassou a adesão afectiva e, na altura em que se cristalizou, abandonei-o. Pensei "está fechado, portanto, já cumpri essa parte". Serviu-me para dizer: "Agora, tenho que fazer outro." Não por moda, mas só por convicção, porque se tinha esgotado.

P. - Nesse sentido, a "Casa das Artes" foi modelo para uma geração?

R. - Não sei se foi. Para mim, foi o primeiro projecto. A Casa das Artes é o máximo da anulação que a arquitectura pode ter, para não existir. Naquele momento, viviam-se os excessos do pós-modernismo. Achei que a arquitectura precisava de um radicalismo, de não existir, de anular-se. Ainda hoje, há muitas situações em que a arquitectura tem de se anular, ser anónima. Como ponto de partida, de rigor, de crítica a uma situação, foi muito saudável. Não pode é ser tomado como regra. Os arquitectos têm de propor coisas simples, senão não funcionam; mas quando a realidade reage, porque é muito complexa, têm que propor coisas complexas. Ser simples funcionou como uma linguagem com uma certa gramática, mas que só dava para casas-pátio, um piso e com muro. Para lotes estreitos e compridos, com uma casa de três pisos, prefiro encontrar outras linguagens.

P.- Ver a Casa das Artes como uma crítica ao pós-modernismo é uma leitura "a posteriori", ou tinha essa noção quando estava a projectar?

R. - Essas ideias nunca são conscientes, mas tinha uma certa noção que vinha do convívio com o Siza. Tinha, e tenho, uma admiração enorme pelo Siza, mas o seu percurso causava-me impressão. Via-o de manhã a desenhar o SAAL, com o máximo do rigor, e à tarde a desenhar a casa do irmão de Santo Tirso. A minha impressão é a de que o Siza funciona por impulsos, portanto, nele existe uma reflexão muito interiorizada... Tem uma emotividade enorme.

Como não tenho dotes artísticos, para encontrar uma coerência, o meu percurso tinha de ser conquistado através do estudo. Durante o curso, dava explicações de filosofia e lia tudo. Na época, trabalhava muito pouco em arquitectura. A escola estava fechada e os meus colegas estavam todos em escritórios, mas só fui trabalhar com o Siza no quarto ano.

A Casa das Artes foi uma reacção; eu não sabia o que era o minimalismo. Entretanto, no escritório discutia-se muito. Lembro-me de uma conferência sobre o Alvar Aalto que o Siza me pediu para fazer na Gulbenkian. Quando lhe disse, com um certo radicalismo juvenil, que achava que a saída não era o expressionismo, nem o organicismo, ficou escandalizado. Siza perguntou-me qual era o arquitecto que eu gostava. Respondi-lhe que era o Mies van der Rohe.

P.- No nosso país começa a haver um desconforto generalizado com a ideia de um "star-system" de arquitectos. Reconhece-se dentro desse "star-system"? Acha que também tem aspectos benéficos, porque corresponde a um reconhecimento da importância da arquitectura?

R. - Sei que não sou um desconhecido, mas também não sei se sou do "star-system", porque não fiz nada para isso. Mas acho que o "star-system" tem algumas vantagens, não acontece por acaso. Implica uma vida de dedicação ou, então, transforma-se - e penso que não é o caso dos arquitectos portugueses - numa hipocrisia, um vedetismo bacoco. Portanto, obriga a uma qualidade, a uma intensidade de trabalho.

P.- Chamar um arquitecto, como Frank Gehry para fazer o Parque Mayer, em Lisboa, por exemplo, incomoda-o?

R. - Não me incomoda, porque há um outro aspecto que não tem sido falado: a cidade tem de ter monumentos e residências, é uma hierarquia. Foi sempre assim, a história da arquitectura fez-se por "Bruneleschis" e por "Berninis" que desenharam os monumentos e a residência era feita por massa anónima. Só massa anónima também não é cidade, falta-lhe hierarquia. E o contrário é ridículo, porque resulta numa bienal, um "boulevard" cheio de vedetas. Portanto, não acho contranatura. O importante é que isso não se transforme numa regra.

Pode-se levantar outra questão, que não tem nada a ver com a arquitectura; tem a ver com o lado social da arquitectura. Devem fazer-se estádios? Aceitei o de Braga, mas como cidadão acho que há coisas mais importantes. Devem chamar-se os "Gehrys"? Prefiro que o Gehry faça o Parque Mayer do que este seja entregue a algum curioso. Mas como cidadão acho que Portugal tem outras necessidades mais emergentes. Uma coisa é a qualidade intrínseca da disciplina e a outra é a disciplina inserida no ambiente social, cultural e urbano.

P.- Quando recebeu o Prémio Pessoa afirmou que isso lhe criava condições para ter uma posição mais interveniente, em termos culturais. Mas isso não se verificou, a não ser que consideremos a sua arquitectura como uma forma de intervenção.

R. - Quando fiz essa declaração não me transformei num comentador, preferi fazer ao contrário. O prémio deu-me acesso à mudança de escala. E, portanto, não fiz um discurso oral ou escrito, fiz um discurso da própria disciplina. Usei o meu método no estádio e nas outras obras. Pontualmente, quando preciso de falar, falo.

P.- Acha que nos últimos 10 anos a situação da arquitectura em Portugal tem evoluído?

R. - A mim mudou-me muito. E acho que a arquitectura também. O arquitecto é, cada vez mais, uma figura da nossa sociedade. Não há jornal nenhum que se folheie que não tenha uma notícia sobre arquitectura. Isso deve-se ao Taveira, que, quer se goste, ou não, foi quem lançou o arquitecto como uma figura pública. Antes a arquitectura era uma disciplina desconhecida. Com as Amoreiras, houve essa inversão. Assim como com o Siza, no Chiado.

P. - O que é interessante verificar no seu percurso é uma articulação entre um certo pragmatismo, à "Escola do Porto", e referências ao mundo literário, artístico e filosófico. Como é que gere esse conflito?

R. - Se os meios mudam, a acção muda. A cultura do Távora ou a do Siza nunca pode ser a cultura do João Luís Carrilho da Graça, por exemplo. Lembro-me de discutir com o Siza, quando andava entusiasmadíssimo com o Herberto Helder, que, para os meus problemas, tinha mais a ver comigo. O Siza preferia o Cesário Verde e o Távora tinha o Fernando Pessoa e os seus heterónimos. Para resolverem os seus problemas, cada um vai buscar os seus meios. O Távora vem dos homens que o marcaram: Le Corbusier, Bruno Zevi e Lúcio Costa. O Siza também passou uma época de grande suporte teórico. O Alvar Aalto foi uma figura de sustentação, dava saída à "não-saída" do Movimento Moderno. Depois, a produção da arquitectura começou a esvaziar-se do ponto de vista do suporte teórico. Eu já não tinha essa fundamentação: o Venturi punha tudo em causa. Nessa época, a última coisa importante, e que era muito subjectiva, era a autobiografia científica do Rossi e a "Arquitectura" do Donald Judd. Portanto, enquanto os arquitectos faliam do ponto de vista da produção teórica, de como projectar, os escritores ensinavam como escrever, os pintores como pintar, os músicos como fazer música... Encostei-me um pouco aos outros porque eram mais claros.

Mas o pós-modernismo acabou de uma maneira encapotada. O neomodernismo é uma espécie de pós-modernismo, porque as pessoas aderem por gosto. O Portoghesi faz cornijas porque gosta de cornijas; o Foster faz panos de vidro virados a sul porque gosta de vidro. E a postura é a mesma, porque a cornija não é precisa para nada e o pano de vidro também não.

P. - Quando na Casa das Artes utiliza o espelho como dispositivo ficcional, não se trata também de uma colagem pós-moderna?

R. - Não quero filosofar ou teorizar a minha arquitectura, mas acho que isso faz parte da cultura contemporânea. Não se pode esquecer o existencialismo e o fim da metafísica. O Herberto Helder ou o Heiddegger explicam isso muito bem. O espaço não existe, só existe o tempo. Só existe o espaço nos próprios elementos físicos: o muro é o espaço - não há espaço entremuros. Há, depois, através das sensações. Quando fiz a Casa das Artes não podia usar o Vignola, nem o princípio da composição, e a chamada "proporção" também não tinha sentido. O que eu tinha eram muros, pilares e depois a intuição de que entre estes se tinha que passar alguma coisa. Portanto, manipulava-os como cenários, com espelhos, com cores... Não há espaço, só elementos e pedras.

P. - Ainda continua a escrever o seu "caderno das citações"?

R.- Continuo. É um hábito antigo. É sempre o mesmo, não há assim frases tão boas todos os dias.

P. - Fazer um diário de citações significa que não é possível reproduzir uma narrativa linear moderna...

R. - O que eu gosto do modernismo é precisamente o lado superficial porque, neste momento, a coerência, a postura modernista heróica, de mudar o mundo, acabou. Ficaram o vidro, o ferro, os painéis e o sistema. Não é pejorativo, pelo contrário, é o que a arquitectura deve utilizar.

Beijing 2008

estádio olimpico

terça-feira, 2 de dezembro de 2003

ML

Originality is the art of concealing your sources.

quinta-feira, 27 de novembro de 2003

Salvaguarda da Fonte do Ídolo Concluída Até ao Final de Dezembro

2003-11-27 Quinta-feira
[ ABEL COENTRÃO ]
in Público

Salvaguarda da Fonte do Ídolo
Concluída
Até ao Final de Dezembro

As obras de construção do edifício de salvaguarda do Quintal do Ídolo - um santuário rupestre de origem romana situado junto à videoteca Municipal da rua do Raio, em Braga - deverão terminar em Dezembro deste ano. A empreitada, da responsabilidade da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), começou em Novembro do ano passado e deveria ter terminado este mês, mas a descoberta de elementos arqueológicos interessantes em escavações realizadas pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho na área de serviços, já no decurso dos trabalhos, obrigou a arquitecta responsável, Paula Silva, da delegação Norte da DGEMN, a introduzir algumas alterações no projecto, de modo a tornar visível o espaço em causa, que fica sob o patamar de onde os visitantes poderão observar a fonte, e a permitir o acesso dos investigadores ao local.

Os materiais em causa - uma conduta, alimentada por uma caixa de água parcialmente preservada e um muro irregular - terão um interesse maior para a comunidade científica do que para os leigos, mas considerou-se interessante mantê-los no local. Será no entanto preciso esperar até ao segundo trimestre de 2004 para visitar aquele que é um dos mais famosos e enigmáticos monumentos de Braga (ver caixas), já que, após a conclusão dos trabalhos de construção civil, a DGEMN tem ainda de abrir concurso para a musealização do edifício. Nesta fase dos trabalhos foram já despendidos quase 380 mil euros para defender da envolvente e do clima esta obra construída por um desconhecido cidadão romano, Célico Fronto, no Séc. I DC, a que acrescem 40 mil euros previstos no Plano de Investimentos e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central para o próximo ano.

As obras de musealização do Quintal do Ídolo são a salvaguarda possível para um monumento que só muito tardiamente foi valorizado pelas autoridades públicas, Câmara de Braga - que agora até ficará responsável pela gestão do novo imóvel - e Instituto Português do Património Cultural (IPPC) à cabeça. Num artigo publicado no último número da revista da ASPA, a Mínia, Sande Lemos faz uma revisão muito critica do contexto arqueológico deste santuário, que viu toda a envolvente cercada por edifícios a partir dos anos 80, uma alteração que praticamente extinguiu os fios de água que alimentavam a fonte, já então encostada às traseiras de algumas casas da Avenida da Liberdade.

Em 1989, e dadas as descobertas que iam acontecendo, a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho recomendou ao IPPC a realização de escavações "mais amplas e meticulosas" a sul, na zona dos Granjinhos, para onde se preparava a construção do centro comercial hoje existente. A recomendação não foi acatada. "De facto, sem aviso prévio e sem qualquer controlo arqueológico, em Setembro de 1989 toda a zona entre o acesso sudoeste ao hospital e a rua dos Granjinhos foi revolvida por máquinas", recorda Sande Lemos. O buraco manteve-se durante anos e escavações posteriores, já na década de 90, puseram a descoberto a destruição de elementos importantes para a reconstituição da envolvente à Fonte do Ídolo.

A UAUM chegou a pedir ao sucessor do IPPC, o Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, e à autarquia, um inquérito às circunstâncias da destruição. Dois ofícios "que nunca tiveram resposta", lembra o investigador. "Em nosso entender foi um crime de lesa património, numa área legalmente protegida [fazia parte da zona arqueológica de Braga], e que nunca foi inquirido pela entidade de tutela, ou pelo Ministério Público, o que se lamenta. Aliás, os infractores foram beneficiados, pois que foi aprovada a construção pretendida, apesar do pedido de inquérito da UAUM", lembra o arqueólogo que

Data da descoberta desconhecida

Segundo Sande Lemos, a fonte do Ídolo é a par do santuário das Fragas de Panóias, em Vila Real, um dos mais conhecidos monumentos de epigrafia rupestre romana do Noroeste da Península ibérica. Não se sabe quando foi descoberta. Sabe-se, por exemplo, que não consta do famoso mapa de Braga desenhado por Braunio (Georg Braun), em 1594, onde até estão identificados outros pontos da antiga Bracara Augusta, e que a primeira alusão conhecida, que inclui um desenho, encontra-se na obra de Jerónimo Contador de Argote (1728). Nesta lê-se que "Detraz da Igreja de S. Marcos está um quintal, a que chamam o ídolo, nele está uma fonte funda, com tanque, e tem uma pedra, que parece ser rocha viva, a qual tem uma figura de roupas compridas,....". O investigador da Unidade de Arqueologia da UM levanta a hipótese de o monumento ter sido descoberto entre a segunda metade do século XVII e os primeiros anos do século XVIII, por via do rearranjo urbanístico da zona no período barroco, altura em que foram construídos à volta do núcleo medieval da cidade alguns palácios, entre eles o do Raio, a cinquenta metros do tanque. Este permanecerá alheio aos olhos dos topógrafos até que o romantismo do final do Século XIX o torna alvo da curiosidade de figuras como Martins Sarmento e Leite de Vasconcelos. Este último, nota o investigador da UM, acabaria por propor no segundo volume das "Religiões da Lusitânia", de 1905 "uma leitura coerente" do santuário, que a 6 de Junho de 1910 acabaria por ser classificado como Monumento Nacional

Arqueólogo acredita que a fonte terá sido um santuário privado

No artigo publicado no número dez da revista Mínia, apresentada esta semana, o arqueólogo Sande Lemos, levanta uma nova hipótese para o enquadramento do quintal do ídolo no contexto da cidade romana. Depois do francês Alain Tranoy (1981) ter sugerido que o monumento teria sido um santuário relacionado com a proximidade da necrópole da via Bracara - Aquae Flaviae - Asturica, e do galego António Rodriguez Colmenero (1993) o ter relacionado com cultos pré-romanos, o investigador da Unidade de Arqueologia da UM entende que ele possa ter sido afinal um santuário privado, erguido na propriedade de Celico Fronto. "Os dados de que dispomos sugerem que a fonte do Ídolo estava integrada no jardim de uma domus. Este tipo de pequenos santuários era frequente nas urbes do Império Romano", argumenta. Na perspectiva de Sande Lemos, se a fonte tivesse sido um santuário colectivo com eventuais raízes pré-romanas os arqueólogos da UM teriam encontrado elementos escavados nos afloramentos graníticos, "tal como se observam em vários monumentos do género", nota, o que não aconteceu mesmo quando foram efectuadas escavações de acompanhamento das obras em edifícios contíguos. Neste artigo, o investigador não põe de parte a eventual ligação à fonte de um lintel, hoje no Museu D. Diogo de Sousa, onde se pode ler uma inscrição mandada fazer pelos bisnetos de Celico Fronto e que refere uma qualquer reconstrução. Obras no tanque, o tal santuário privado? Na domus onde este estaria integrado. Hoje é muito difícil saber, mas Sande Lemos não deixa de sugerir que se pondere a inserção do lintel no espaço musealizado da fonte do Ídolo.

quarta-feira, 26 de novembro de 2003

ML

In the beginning was the word - and the word was four bytes.

2003-11-23 Quarta-feira
[ HELENA ROSETA ]
in Público

A Arquitectura
em
Tempo de Viragem


Depois de um Ano Nacional dedicado ao Direito à Arquitectura, reúne-se esta semana, com o mesmo lema, o Congresso dos Arquitectos. Passaram cem anos sobre a criação da primeira organização associativa de arquitectos e arqueólogos, em que pontificava Possidónio da Silva. Foi enorme o caminho percorrido. Gerações sucessivas de arquitectos ajudaram a construir a nossa identidade. Hoje, arquitectos portugueses são reconhecidos e projectam Portugal no mundo inteiro. Mas, na última década, a profissão modificou-se profundamente. Dois terços dos 11 mil arquitectos inscritos na Ordem têm menos de 40 anos. Esta percentagem, a norte do país, chega aos 80 por cento.

A esta explosão demográfica não correspondeu nenhuma alteração das políticas legislativas com impacto na arquitectura. A qualificação profissional exigível aos autores de projectos não foi alterada, apesar do êxito da petição entregue na Assembleia para revogar o velho decreto 73/73, que permite a não licenciados em arquitectura fazer projectos. Não existe, ao contrário do que acontece noutros países europeus, uma política nacional de arquitectura. Nem sequer temos, na estrutura do Governo, um interlocutor com quem debater as questões da arquitectura, como existe para o sector da saúde ou da justiça. É evidente que há matérias que são sempre transversais. Mas a ausência de um rosto ajuda a manter a ausência de uma responsabilidade.

Nuno Teotónio Pereira, uma das grandes referências da arquitectura portuguesa, apresenta ao próximo congresso uma comunicação em que compara o Congresso dos Arquitectos de 1948 com a situação actual. Em 1948, um grupo de jovens arquitectos revoltou-se contra a imposição pelo regime salazarista de um estilo "nacional". E partiram, sob o impulso de Keil do Amaral, à descoberta da arquitectura popular, procurando um saber antigo e essencial, onde as formas habitadas nascem da relação entre o homem e o meio. Hoje, diz Teotónio Pereira, a liberdade de expressão arquitectónica não está ameaçada pela ditadura política mas pela ditadura do mercado. O que se vende, diz ele, é uma arquitectura medíocre, que não pode deixar de afectar a qualidade de todo o tecido urbano. Ou então, acrescento eu, o nome de grandes arquitectos é usado para alavancar operações imobiliárias e tornear procedimentos legais. O resultado não favorece a cidadania.

Se até agora os arquitectos podiam esconder-se na culpa alheia para não assumir a sua quota parte no estado das nossas cidades, periferias e paisagem, a já prometida revogação do decreto 73/73 vai trazer-nos responsabilidades acrescidas. Só isso bastaria para fazer deste congresso um marco importante para uma nova etapa na arquitectura em Portugal.

Mas há muito mais a fazer: abrir o debate sobre a arquitectura a todos os cidadãos, no espírito do "direito à arquitectura" que vimos defendendo e que implica a possibilidade de toda a gente usufruir de espaços bem pensados para habitar, trabalhar, resolver os problemas do seu dia-a-dia ou simplesmente passear; manter um elevado nível de exigência profissional e deontológica; cooperar com as outras ordens e parceiros associativos, nomeadamente as associações empresariais da construção civil, para melhorar a qualidade da arquitectura, da construção e do ambiente urbano; aumentar a capacidade de resposta qualificada na área do urbanismo, através do Colégio de Especialidade e em diálogo com os restantes profissionais do sector; avaliar criticamente o ensino da arquitectura e as provas de admissão à Ordem, que este ano se realizaram pela primeira vez com uma taxa de reprovação de 95 por cento; mudar o actual sistema de entrada na Ordem por forma a que as provas de admissão tenham lugar no fim e não no princípio do estágio; enfim, melhorar os processos de regulação interna da profissão, sem esquecer que o objectivo final deve ser sempre a promoção e defesa da arquitectura como um direito, um serviço e um bem a que os cidadãos devem ter acesso. A criação da figura do provedor da Arquitectura, no espírito do provedor do cliente há dias defendido neste jornal por Vital Moreira, será uma inovação a realizar desde já.

A arquitectura é um recurso nacional, tanto mais relevante quão difíceis são os tempos. Não podemos desperdiçar meios. A capacidade criativa e o talento dos arquitectos são cada vez mais necessários. Há que trazer valor acrescentado a um sector económico, o da construção civil, que está a atravessar uma crise recessiva e que precisa de se reformular. Há que contribuir para melhorar o estado do ambiente urbano e do território. Há que tornar mais transparentes os circuitos de decisão no processo imobilário e na distribuição da encomenda pública. Há que desenhar um modelo sustentável de desenvolvimento para Portugal, que valorize os nossos recursos sem delapidar o futuro. É o momento de os arquitectos se voltarem a mobilizar, como fizeram em 1948, pela liberdade de expressão e pelo interesse público. Acrescentando-lhe, em pleno século XXI, as novas formas de defesa da cidadania, de que essa liberdade é condição imprescindível e que o interesse público exige.

terça-feira, 25 de novembro de 2003

ML

Faith move mountains. People in a hurry prefer dinamite...

quarta-feira, 19 de novembro de 2003

sábado, 15 de novembro de 2003

Prémio : Piada do Ano

bartoon @ publico.pt

Os 14 Escolhidos para o "À Sombra de Deus 3"

2003-11-15
[ NUNO PASSOS ]
in Público

Os 14 Escolhidos
para o
"À Sombra de Deus 3"

Estão já escolhidos os 14 projectos musicais bracarenses que vão fazer parte da compilação "À Sombra de Deus 3", a lançar pela Câmara Municipal de Braga em Maio de 2004. Aos convidados Mão Morta, Big Fat Mamma e Demon Dagger, juntam-se o rock de Freequency e Jack In The Box, o hard rock de Spank The Monkey, o drum'n'bass de Phi, o electrónico de VortexSoundTech, o experimentalismo de Mecanosphere, o hip-hop de Zero, os cantautores The Neon Road e André Leite e o alternativo de Wave Simulator e Seis Graus de Separação.

"Fiquei surpreendido com a quantidade, qualidade e diversidade sonora que existe em Braga. Esta é uma cidade musicalmente cosmopolita e estamos num ciclo de grande força criativa, a evolução aponta para múltiplas tendências", considerou ao PÚBLICO Miguel Pedro (Mão Morta), que será o produtor artístico e executivo da colectânea. "À Sombra de Deus 3" surge igualmente como uma resposta à crescente oferta musical da capital do Baixo Minho, que, em termos comparativos, tem mais de um milhar de alunos a frequentar as suas cinco escolas de música.

Dos 12 projectos previstos inicialmente pela autarquia - que vai investir cerca de 12 mil euros -, teve de se passar para 14, devido ao elevado número de maquetas concorrentes (30). Os critérios de escolha basearam-se na coerência instrumental, na abrangência de estilos, no currículo da formação e na experiência dos intérpretes. "A selecção final foi dificílima. Foi o juízo da subjectividade, com uma escolha coerente mas não justa. Há boas bandas que ficaram de fora, inclusive algumas que nem um ano têm", sublinhou Miguel Pedro.

A compilação tem uma vertente comercial e, acima de tudo, nacional, concedendo aos grupos emergentes a aproximação aos média e ao mercado. As 1500 cópias da primeira edição devem chegar aos escaparates através de uma distribuidora e, em complemento, ser vendidas com um jornal semanário de música. "O CD deve funcionar como uma verdadeira infra-estrutura, algo que se mantenha além do tempo e que, por outro lado, sirva para fomentar a carreira das novas bandas, permitindo-lhes arranjar concertos e um eventual contrato discográfico", continuou o baterista dos Mão Morta.

Em Dezembro e Janeiro, decide-se o tema que cada colectivo vai incluir e as datas das gravações, que vão decorrer em Fevereiro, nos estúdios bracarenses da Casa do Rolão. Cada grupo terá até dois dias para gravar e conta com o apoio do técnico de som Nelson Carvalho (Mão Morta, Blind Zero). As misturas e masterização decorrem em Abril e Maio.

O músico Paulo Trindade (Seis Graus de Separação, ex-Rua do Gin) e os Mão Morta são os únicos a estar nos três "best of" da autarquia, que já lançara em 1989 e 1995 projectos como Rongwrong, Calígula, Espírito Ressacado ou Pupilas Dilatadas.

BANDAS ESCOLHIDAS

André Leite
Big Fat Mamma
Demon Dagger
Freequency
Jack In The Box
Mão Morta
Mecanosphere
Phi
Seis Graus de Separação
Spank The Monkey
The Neon Road
VortexSoundTech
Wave Simulator
Zero